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Dossiers  |  No atelier de Júlio Pomar
No atelier de Júlio Pomar
Sophie Enderlin
No atelier de Júlio Pomar
No atelier de Júlio Pomar

Existe em Lisboa um eléctrico turístico que segue o percurso do 28 e pára sistematicamente no sopé de uma pequena rua dum bairro popular. Os passageiros que transporta podem assim admirar e fotografar a fachada da igreja que fecha a perspectiva da rua com um arco barroco. O eléctrico pára invariavelmente e parece ignorar que a  vista está obstruída, há vários meses, pelos andaimes e contentores de entulho que elegeram domicílio em frente ao nº7. Aí, irá abrir o atelier museu Júlio Pomar, igualmente sede da Fundação com o mesmo nome, informação essa que, em breve, deverá ser acrescentada no guia áudio do eléctrico vermelho. Aliás, se esse veículo pudesse levar os visitantes até ao atelier desse grande pintor português, estes seriam imediatamente interpelados pelos sons que dele emana:  o esfregar do pincel na tela, o ranger do carvão, o resmungar que aí soa quando a mão trai o pensamento, ou ainda o estalido do soalho sob os pés do artista que, tal um pássaro a cortejar a sua fêmea, ora se aproxima da sua obra, ora se afasta dela.   

Galgados os últimos degraus que levam ao sótão desta bela e sóbria casa que resistiu ao terramoto de 1755, o olhar depara-se finalmente com as obras em progresso que aí se aninham. Júlio Pomar vem para junto delas pela manhã, quando o dia ainda vai clareando e a rua acorda à passagem do primeiríssimo 28. Começam então a transformar-se um quadro, ou vários ao mesmo tempo, uma composição, um poema - é que Júlio Pomar também domina a arte da escrita -  possuídos pelo pintor que os trabalha, os remexe, os tritura sem descanso até que se revele e se fixe o produto resultante da alquimia entre o artista e a sua obra.

Houve um tempo em que Júlio Pomar trazia ao mundo um grande fresco de azulejos :  figuras viam a luz do dia pela manhã e desapareciam à tarde, voltavam noutro sítio no dia seguinte, algumas surgiam inesperadamente e pareciam encontrar imediatamente o seu lugar, outras viviam algum tempo sob determinada forma antes de se metamorfosear, numa sarabanda que durou vários meses antes que o Júlio conseguisse reter a alegre tropa que havia convocado.  E se a obra de Júlio Pomar nos inspira uma palavra, essa palavra é « alegria ». A alegria do corpo e dos sentidos, bem como a alegria do espírito. Presenteia-nos há mais de 50 anos com uma obra que poderia resumir-se no título de uma das suas mais belas exposições: «  Les Joies de Vivre », ou ainda nas palavras que proferiu quando lhe entregaram o prémio SPA « Obra e Vida», no passado dia 8 de Fevereiro : ao público que o acolheu com uma ovação formidável, aconselhou «Gostem... e deixo-vos acabar a frase ».

Crédito fotográfico - retrato de Júlio Pomar: Alfredo Cunha, 2002 
Copyright para todas as imagens: FJP/SPA.


















D. QUIXOTE E OS CARNEIROS (1997)
Colecção Particular
Acrílico, carvão e pastel sobre tela
232 x 349 cm (quatro elementos)






LA FEMME ET LE CENTAURE (2002)
Fundação Júlio Pomar, Lisboa
Litografia
       92,5 x 78 cm












LA BAIGNADE DES ENFANTS DANS LE TUTUARI (1998)
Fundação Júlio Pomar, Lisboa
Litografia
92,5 x 78 cm












LA CLEF (1999)
Colecção Particular
Acrílico, carvão e pastel sobre tela
195 x 390 cm

  
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